Segunda-feira, dia tradicionalmente morto, parado, onde quase nada acontece, ou melhor, as coisas acontecem, só que bem, bem devagar, certo? Quase. Pelo menos uma vez ao mês, um grupo que a cada dia agrega novos convivas, resolveu mudar parte deste estereótipo. Agora, eles se reúnem para trocar experiências gastronômicas, compartilhar ideais, jogar conversa fora... só que bem, bem devagar.

Com a licença aos neologismos de Guimarães Rosa, mas a última reunião "degustativa" do Convivium Slow Food Recife, realizada no dia 12/11, foi algo meio que Macobras (Maravilhosa comilança brasileira). Tendo como temática "cozinha brasileira", o local da reunião não poderia ser tão apropriado, Marim dos Caetés, a nossa velha Olinda. Cenário maravilhoso, que abriu suas portas para um novo movimento, que busca salvaguardar o que esta cidade tem de mais precioso, as tradições, só que as gastronômicas. Que foram facilmente degustadas e apreciadas por todos.

Assim como o carnaval olindense que congrega de forma democrática e harmônica as mais diferentes manifestações e raças, a nossa "comilança", não faltou tempero, aromas e origens, bem brasileiros. A profusão de sabores começa com uma salada de folhas (alface americana, rúcula, tomate e queijo de cabra) fresquíssimas, elaborada pela anfitriã Silvia (de Caicó para o mundo), acompanhado por leves molhos de iogurte, mostarda e pães. Uma tentação. Estava aberta a temporada das sensações!!

Em seguida, foi servido uns mini-pastéis, daqueles de feira mesmo, intitulado de pastel sertanejo, recheado com creme de queijo coalho com lingüiça matuta e geléia de umbu (produto confeccionado no sertão da Bahia que recebe o apoio do Slow Food). Modéstia a parte, mas aquele negócio não é que ficou bom!

Seguiu com uma carne de aratu de côco e biribiri também de côco. O aratu, que é uma espécie de caranguejo pequeno avermelhado,encontrado em parte dos manguezais nordestinos, apresenta um sabor levemente adocicado que contrastou muito bem com o frescor e gosto literalmente azedo desta frutinha parente da carambola, que é empregada com maestria hoje pelo carismático Chef Beto Pimentel, do Restaurante Paraíso Tropical, em Salvador. Detalhe, com direito a uma pimentinha de cheiro colhida na hora. Tanto o aratu quanto o biribiri são dificílimos de serem encontrados.

Já a cozinheira de mão cheia Irene, nos presenteou com uma paçoca de carne-de-sol. Só não foi socada no pilão, mesmo assim ficou ótima! Ela foi devidamente acompanhada por um delicado arroz vermelho (produto que recebe o apoio do Slow Food, na nossa vizinha Paraíba), preparado com todo o rigor técnico pelo não menos expert nas panelas, e diga-se de passagem, na arte de comer, Augusto.

Os políticos corruptos, depois de eleitos pela sua vulgaridade, seu comportamento mesquinho por mentir e trair seus eleitores e correligionários, são chamados de "traíras", o que certamente é a maior injustiça cometida ao peixe mais genuíno do Brasil, que habita todas as bacias hidrográficas; vive em todos os rios, represas e cursos d'água que existem no país. E, não poderia ser diferente, foi o grande protagonista da nosso noite. Elaborado à moda caicoense, com bastante nata (influência francesa), a mais nova adepta da filosofia Slow Food em Recife, a cozinheira e anfitriã da noite Silvia, conferiu ao filé do peixe de sabor e textura já delicados, o que parecia ser impossível. Fomos todos incrivelmente transportados, pela espontaneidade e simpatia da Slivia, para sua fervorosa terra natal: Caicó. Tudo acompanhado por uma arroz vermelho de leite e feijão verde levemente aromatizado com coentro.

Vôte! Pensa que acabou? Falta só o delicioso escondidinho de charque, elaborado pela cozinheira pernambucana Tânia. E, para mostrar que somos "doces por excelência", nos lambuzamos com um doce de côco com mamão, um doce de umbu, um doce de casca de limão e uma rapadura de baru (castanha do cerrado que também recebe apoio do Slow Food).


Thiago das Chagas é o líder do Convivium Slow Food Recife