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Editoras desta coluna: Renata Menasche Fabiana Thomé da Cruz

cafezinhoO cafezinho faz parte do conjunto constituído pela comida e, como tal, "fala" de práticas, valores e possui dimensões simbólicas interessantes. Ele é parte de uma linguagem.

Tomar cafezinho junto significa compartilhar, tornar um momento ritual, marcá-lo como algo que nos aproxima, reforça laços. Pode ser também uma pausa no cotidiano.

Quando se recebe alguém em casa, principalmente quando não é alguém muito conhecido, e se "passa um café" novo, esse é um claro sinal de boas vindas: a presença da pessoa é desejada. Inversamente, servir um café morno ou requentado é ofensivo, significa que a pessoa deve se retirar logo.

Para conhecer um lugar e a gente desse lugar, é preciso comer sua comida. Na história das sociedades, o viajar esteve sempre associado ao comer. Mas tanto o viajar como o comer adquiriram, nas sociedades contemporâneas, novos significados.

É a esse respeito que nos fala o texto Turismo e gastronomia: uma viagem pelos sabores do mundo, de Janine Collaço. Um convite para uma apetitosa reflexão.

Diversidade, sabores e culturas

O turismo e a gastronomia selaram sua relação ao longo do século XX, quando o hábito de viajar incorporou-se no período de descanso. As férias e os meios de transporte mais eficientes fizeram com que os deslocamentos se tornassem comuns, resultando em um intenso fluxo de pessoas, circulando de um lado a outro.

Nesse ir e vir mais freqüente, o contato com novas paisagens, culturas e sabores despertou interesses variados em torno do evento turístico, e assim foi que a gastronomia ganhou lugar, sobretudo ao atrair um segmento de viajantes interessados em estimular seus sentidos através da experimentação da cozinha do Outro. Embora já fosse prática anteriormente, Culinary Tourism ou turismo culinário (também gastronômico) adquiriria essa nomenclatura somente no final dos anos 1990 (Long, 2004). O que mudou, a partir de então, foi a importância atribuída à gastronomia na viagem, sempre uma forma de experiência de contato com a diversidade cultural.

rue-mouffetard-paris.jpgConhecer pratos, ingredientes, comprar produtos, levá-los para casa... No retorno, a memória é cultivada em torno de imagens e sabores, preferencialmente compartilhados entre familiares e amigos, ressaltando a abertura ao novo e o contraste entre as práticas corriqueiras e aquelas até então desconhecidas, encontradas na viagem. Esse exercício pode ser entendido como uma espécie de manejo estético de códigos culturais, que mostra os limites entre nós e os outros, mas da forma habilidosa que é proporcionada pela comida.

Aqueles que, há poucos dias, tiveram a oportunidade de participar do Terra Madre Brasil, o encontro das comunidades do alimento, e circular pelo espaço da Feira da Agricultura Familiar, se encantaram com toda a diversidade de saberes e sabores que temos neste nosso País. A reflexão que queremos trazer aqui diz respeito a essa diversidade.

Sabemos que as práticas alimentares são carregadas de significados: alimentamo-nos não apenas de nutrientes, mas também de imaginário. Quando vemos o processo de preparação e consumo de alimentos de um povo distante, lá da Amazônia talvez, nos damos conta de como as práticas alimentares são ritualizadas. Mas será que o gaúcho percebe que o churrasco de domingo é também um ritual? Ou o carioca, quando come uma feijoada, rodeado de amigos e parentes? Tantos são os exemplos que poderíamos lembrar!

Maria Lúcia Barreto Sá descreve, em um belo texto, A quinta do caranguejo, um ritual alimentar, que se realiza não em algum canto longínquo do interior deste Brasil, mas em uma de suas grandes cidades, Fortaleza.

Com isso, podemos observar que os rituais alimentares estão presentes na vida de todos nós. Só que, muitas vezes, nos damos conta dessa dimensão simbólica da alimentação apenas quando olhamos para algo que nos parece exótico... não é mesmo? 


* Renata Menasche é antropóloga, professora e pesquisadora, autora do livro A agricultura familiar à mesa: saberes e práticas da alimentação no Vale do Taquari.

caranguejosQuinta-feira é o dia! E o ritual é à noite! Vem do mangue para a praia, à beira mar, da lama à mesa.

A fonte de tal iguaria pode ser de perto ou de longe. Chega em um amarrado chamado corda, ainda vivo. É morto com uma faca de ponta fina. Se colocado vivo na água quente, soltam-lhe as patas. Antes de cozinhar, é lavado, esfregado, raspado. Depois, é escaldado. Durante o cozimento, sua cor vai mudando, até que chega "ao ponto".

O sabor é ressaltado pelo acréscimo de ervas, pimentas e leite de coco. Da cozinha, é levado, em bacia plástica ou de barro, por entre mesas, coberto pelas folhas verdes do coentro, regado com o leite de coco, fumegante. Despejado sobre a mesa o conteúdo da bacia, dá-se início ao ritual propriamente dito. São várias mãos, a um só tempo, em busca do maior caranguejo. Em seguida, com pancadas firmes e ansiosas, as carnes são tiradas fora, para o prazer dos comedores.

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