Slow Food Brasil

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Editoras desta coluna: Renata Menasche Fabiana Thomé da Cruz

Aqueles que, há poucos dias, tiveram a oportunidade de participar do Terra Madre Brasil, o encontro das comunidades do alimento, e circular pelo espaço da Feira da Agricultura Familiar, se encantaram com toda a diversidade de saberes e sabores que temos neste nosso País. A reflexão que queremos trazer aqui diz respeito a essa diversidade.

Sabemos que as práticas alimentares são carregadas de significados: alimentamo-nos não apenas de nutrientes, mas também de imaginário. Quando vemos o processo de preparação e consumo de alimentos de um povo distante, lá da Amazônia talvez, nos damos conta de como as práticas alimentares são ritualizadas. Mas será que o gaúcho percebe que o churrasco de domingo é também um ritual? Ou o carioca, quando come uma feijoada, rodeado de amigos e parentes? Tantos são os exemplos que poderíamos lembrar!

Maria Lúcia Barreto Sá descreve, em um belo texto, A quinta do caranguejo, um ritual alimentar, que se realiza não em algum canto longínquo do interior deste Brasil, mas em uma de suas grandes cidades, Fortaleza.

Com isso, podemos observar que os rituais alimentares estão presentes na vida de todos nós. Só que, muitas vezes, nos damos conta dessa dimensão simbólica da alimentação apenas quando olhamos para algo que nos parece exótico... não é mesmo? 


* Renata Menasche é antropóloga, professora e pesquisadora, autora do livro A agricultura familiar à mesa: saberes e práticas da alimentação no Vale do Taquari.

caranguejosQuinta-feira é o dia! E o ritual é à noite! Vem do mangue para a praia, à beira mar, da lama à mesa.

A fonte de tal iguaria pode ser de perto ou de longe. Chega em um amarrado chamado corda, ainda vivo. É morto com uma faca de ponta fina. Se colocado vivo na água quente, soltam-lhe as patas. Antes de cozinhar, é lavado, esfregado, raspado. Depois, é escaldado. Durante o cozimento, sua cor vai mudando, até que chega "ao ponto".

O sabor é ressaltado pelo acréscimo de ervas, pimentas e leite de coco. Da cozinha, é levado, em bacia plástica ou de barro, por entre mesas, coberto pelas folhas verdes do coentro, regado com o leite de coco, fumegante. Despejado sobre a mesa o conteúdo da bacia, dá-se início ao ritual propriamente dito. São várias mãos, a um só tempo, em busca do maior caranguejo. Em seguida, com pancadas firmes e ansiosas, as carnes são tiradas fora, para o prazer dos comedores.

O quê se come, com quem se come, quando, como e onde se come... nas sociedades humanas, a fome e a sede são formuladas e satisfeitas não apenas a partir das dimensões biológico-nutricionais, mas em termos culturais, sociais e históricos. Entendendo, então, que o ato alimentar implica em valoração simbólica, a proposta desta coluna é trazer para o espaço do Slow Food Brasil pequenos textos e notas de pesquisa de gente que, a partir de abordagens diversas, tem estudado as injunções entre alimentação e cultura.

» De Simplesmente Martha a Sem Reservas

 


* Renata Menasche é antropóloga, professora e pesquisadora, autora do livro A agricultura familiar à mesa: saberes e práticas da alimentação no Vale do Taquari.

 

o alimento como protagonista de transformações humanas

Simplesmente MarthaBella Martha, nome original do filme da diretora Sandra Nettelbeck, é uma produção alemã, lançada em 2001, que conta a história de Martha Klein, a obstinada e perfeccionista chef de cozinha de um refinado restaurante de Hamburgo.

Refilmado sob direção de Scott Hicks, No Reservations ou, em Português, Sem Reservas, recente produção de Hollywood, além de não ter o mesmo charme da versão original, não explora o alimento como tema central, como coadjuvante de profundas transformações nos personagens.

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