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Editoras desta coluna: Renata Menasche Fabiana Thomé da Cruz

arepasO homem é um onívoro que estabelece regras alimentares, classificando o que é comestível ou não, transformando alimento em comida. Assim é que o que se come em determinada cultura não se come em outra. E assim é que trago aqui esta história...

Trafegando por rodovias que cruzam os municípios de São Bendito, Ubajara e Tianguá, região cearense chamada de Serra Grande ou Ibiapaba, deparei-me com algo inusitado. Mulheres, homens, jovens e crianças correndo no mato, de um lado para o outro, olhando ora para a terra, ora para os ares. Meus olhos seguiam o mesmo movimento, tentando entender o que estava acontecendo. Um brincadeira? Uma disputa? Uma coleta? O que seria?

Nas mãos, garrafas pet, baldes e latas, cujo conteúdo escuro eu não conseguia distinguir bem. Fiquei assistindo, por um bom tempo, aquilo que parecia ser uma atividade divertida para quem a praticava... enquanto pensava na estranha interação entre homem e natureza que observava. A convivência, o movimento, gritos e risadas, cheias de códigos entendidos por quem participava e não entendidos pelos de fora.

Ao aproximar-me, percebi que eram formigas voadoras, tanajuras negras e gordas. Indaguei para que serviam. Responderam que era pra comer e pra vender. Quando criança, tinha visto tanajuras no sertão, mas não tinha conhecimento de que podiam ser comidas.

paisagem4.jpgDe minhas recentes viagens ao Pirineu, impressionou-me a ternura que os pagesos (como são chamados os camponeses na Catalunha) ainda hoje conservam pela montanha. Ternura entendida como uma mistura bem feita de amor e respeito.

Até um passado muito próximo, a montanha foi provedora de todos os alimentos, sendo ainda capaz de curar, com as ervas que abundavam por seus campos e bosques, os males de homens e criações. As estações do ano eram como páginas de uma agenda sempre cheia. Tudo tinha que ser feito num tempo preciso e inadiável, sob pena de se perder o compromisso diário com a sobrevivência.

Em alguns momentos mais emocionantes das visitas e entrevistas que tive oportunidade de realizar, acho até que pude compreender - ainda que seja incapaz de transmitir - porque a montanha é, em muitas culturas e em diversos pontos do planeta, um lugar de veneração.

biju-mandioca-indigena.jpg Este artigo aborda a contribuição dos grupos indígenas no processo de formação da culinária brasileira a partir das obras de Gilberto Freyre e Luiz da Câmara Cascudo, autores das obras mais significativas sobre a temática e referências obrigatórias para pesquisas na área.

A leitura desses autores passa a impressão de que a contribuição indígena para a cozinha brasileira se resume ao fornecimento de ingredientes, deixando de aportar ao saber-fazer e demais elementos dos sistemas culinários. No entanto, o curioso é que justamente nas obras desses autores encontramos informações que contrariam essa noção.

Assim é que este artigo pretende pensar a contribuição indígena à culinária brasileira a partir das entrelinhas de Gilberto Freyre e Câmara Cascudo.

macas"Comer é uma atividade humana central não só por sua freqüência, constante e necessária, mas também porque cedo se torna a esfera onde se permite alguma escolha. Para cada indivíduo, representa uma base que liga o mundo das coisas ao mundo das idéias por meio de nossos atos. Assim, é também a base para nos relacionarmos com a realidade. A comida ‘entra' em cada ser humano. A intuição de que se é de alguma maneira substanciado - ‘encarnado' - a partir da comida que se ingere pode, portanto, carregar consigo uma espécie de carga moral. Nossos corpos podem ser considerados o resultado, o produto, de nosso caráter que, por sua vez, é revelado pela maneira como comemos." (MINTZ, 2001)

A partir da citação reproduzida acima, extraída de um artigo do antropólogo Sidney Mintz, podemos perceber como o tema das escolhas alimentares é central no campo dos estudos em alimentação e cultura.

E é atenta às escolhas alimentares que Manuela Jomori nos leva, em Escolhas de peso, a observar os frequentadores de um restaurante "a quilo" de Florianópolis, Santa Catarina.

Como podemos, a partir da análise da composição e da descrição de seus pratos, apreender algo sobre quem são? O que suas escolhas alimentares comunicam de suas visões de mundo? Essas são algumas das questões que Manuela discute em sua dissertação de mestrado, que deu base ao artigo aqui apresentado. O prato está servido.


Referência: MINTZ, Sidney W. Comida e antropologia: uma breve revisão. RBCS, 16(47), 2001.

Nos últimos tempos, temos observado mudanças que têm exigido de parcelas significativas da população brasileira, especialmente dos grandes centros urbanos, o ajuste de suas práticas alimentares a diferentes injunções: temporais, espaciais e financeiras. Nesse contexto, o indivíduo é confrontado especialmente com a falta de tempo para voltar para casa e realizar sua refeição - que dirá para prepará-la -, optando pela alimentação fora de casa.

Entre 2002 e 2003, a Pesquisa de Orçamento Familiar (POF), realizada pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), constatou que, nas grandes metrópoles brasileiras, dos gastos totais com alimentação das famílias, cerca de 25% são destinados à alimentação fora de casa. Já a Associação Brasileira das Indústrias da Alimentação (ABIA) relatou, em 2005, que o crescimento do setor de alimentação fora de casa foi de 225,8% desde 1995.

bufe-quiloO setor de alimentação fora de casa apresenta um tipo de restaurante que tem sido muito freqüentado pelos brasileiros nos últimos anos, o restaurante por peso. Trata-se de um modelo self-service (auto-serviço), em que o comensal escolhe o que deseja consumir e paga o valor referente ao peso daquilo que foi colocado em seu prato. Nesse sistema, há uma ampla oferta de opções de alimentos e preparações, dispostos em um bufê, em que o comensal se serve. Na seqüência, ele leva o prato para pesagem, em uma balança que registra o preço por peso da comida, pagando referente ao peso dos alimentos colocados em seu prato. Essa sistemática faz com que o restaurante por peso seja um ambiente interessante para a avaliação das escolhas alimentares dos indivíduos.

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