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Editoras desta coluna: Renata Menasche Fabiana Thomé da Cruz

Comida, Mercado Público de Belo Horizonte e rituais alimentares

mercadobh1.jpgQuem já não ouviu falar que um dos primeiros lugares que um visitante, turista ou forasteiro deve conhecer, ao chegar em uma cidade, é o Mercado Público?

Lugar de encontro, de expressão de diversidade, do cotidiano, das diferenças, das particularidades; geralmente os Mercados Públicos das médias e grandes cidades são vistos e lembrados como uma porção de espaço significante da cultura local. A variedade de trocas, de consumo e de amplas possibilidades de comercialização são características dos Mercados, assim como a diversidade de frequentadores. De diferentes origens sociais, pessoas circulam, compram, vendem e trabalham em Mercados, configurando um espaço de vivência e de manifestação da materialidade da vida social.

Mercados Públicos, de maneira geral, podem ser vistos como locais de resolução de demandas de consumo. Na prática, para além das relações entre a oferta e a procura, o Mercado representa a constituição de um espaço que é também simbólico, gera identidade, por ser lugar de vivência, de compra e venda, mas também de sentimentos e valores.

Roda_de_chimarrao_em_torno_do_tacho_de_doce"São fatores de permanência os que contribuem para a continuidade dos modos tradicionais de vida; e de transformação, os que representam a incorporação aos padrões modernos" (CANDIDO, 1982, p.200).

Em menção à frase de Antonio Candido, este artigo aponta fazeres e saberes alimentares presentes na agricultura familiar de Jaboticaba, Rio Grande do Sul, que se conformam como fatores de permanência de um modo de vida, representando e significando a identidade de (ser) agricultor.

pict0009.jpgNeste estudo de cunho antropológico pretendemos problematizar os aspectos que fundamentam a doação de comida efetuada aos "moradores de rua" e/ou pessoas em situação de vulnerabilidade social provenientes de bairros periféricos de Pelotas, Rio Grande do Sul.

O trabalho caritativo é realizado pela Comunidade Fonte Nova: um grupo de oração vinculado à Igreja Católica. As primeiras atuações caritativas remontam há sete anos, quando o grupo iniciou a distribuição de comida aos "pobres", ao lado da histórica igreja pelotense, a Catedral São Francisco de Paula. Nesse ambiente urbano e público é que os beneficiários alimentavam-se, sentados em grupos no meio-fio da calçada. Após uma série de reclamações advindas de vizinhos - importunados com a sujeira e com a "poluição" ali deixadas pelos comensais - o grupo Fonte Nova mudou-se para uma casa, situada na Rua Dom Pedro II, dando ali continuidade a suas atividades, mas agora em um ambiente considerado apropriado, em espaço privado. Essas refeições, tanto no modelo anterior como no atual, acontecem todas as quartas-feiras, ao cair da tarde.

A metodologia da pesquisa deu-se no envolvimento direto com os grupos - tanto doadores quanto beneficiários -, com os quais realizamos a observação participante no intuito de desvendar as práticas e percepções que os interlocutores constroem entre si, tendo a comida como portal de entrada.

bandejapaisa4.jpgComer é mais do que um simples ato biológico: é também um ato que marca fronteiras de identidade entre diferentes grupos humanos. A estreita relação entre alimentação e cultura é visível quando o que se come, quando se come, como se come, e com quem se come são valorados de forma diferenciada por distintos grupos de seres humanos. É assim que em minha viagem à Colômbia (em 2008), passando por cidades grandes e pequenas, zonas urbanas e rurais, chamou-me a atenção o ato alimentar enquanto elemento de identidade e diferenciação de um grupo social específico.

Na Colômbia, falar da cultura Paisa é falar de um território não instituído administrativamente, mas formado e forjado culturalmente. No começo do século XX, uma separação administrativa terminou por dividir a região Paisa entre, por um lado, os departamentos de Antioquia, Caldas, Quindio e Risaralda e, por outro lado, o norte do Vale do Cauca e do noroeste de Tolima, região formada por montanhas e atravessada pelas cordilheiras andinas. Não por acaso, a chamada capital Paisa, Medellin, com seus mais de três milhões de habitantes, é conhecida como a capital da montanha.

[Leia a primeira parte deste artigo aqui]

arroz_black.jpgA comida em geral, assim como o arroz, é simbolicamente parte de um código que organiza a alimentação bem como as relações étnicas, de gênero, de trabalho e as interdições e indicações alimentares no tempo e espaço. Ao mesmo tempo em que possui um valor nutricional, a comida tem também um valor cultural.

É o que Schoepf (1979, p.4) observa, no contexto do comer indígena: "a mesa é o lugar de um saber pertinente que conjuga cozinha e sociedade", enfatizando que entre os Wayaná o "saber comer" define o código social do grupo (Schoepf, 1979, p.11).

Tal como entre os Wayaná, a comida dos Marubo (Montagner e Melatti, 1987) aponta para etno-classificações. Para esse grupo indígena, ela é dividida em ingredientes "pesados" - aqueles que são caçados ou coletados na mata - e os "leves" - aqueles que são por eles cultivados nas roças ou criados na aldeia. É interessante que no médio Rio Negro (Amazonas), no cotidiano das aldeias, os vários grupos indígenas consomem suas comidas tradicionais, carnes de caça ou peixe cozidas ou moqueadas acompanhadas por beiju, produzido de farinha de mandioca e pimentas. No entanto, quando realizam suas grandes reuniões de lideranças políticas, eles consomem "comida de branco", composta de feijão com arroz, carne de boi e macarrão.

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