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Editoras desta coluna: Renata Menasche Fabiana Thomé da Cruz

Roda_de_chimarrao_em_torno_do_tacho_de_doce"São fatores de permanência os que contribuem para a continuidade dos modos tradicionais de vida; e de transformação, os que representam a incorporação aos padrões modernos" (CANDIDO, 1982, p.200).

Em menção à frase de Antonio Candido, este artigo aponta fazeres e saberes alimentares presentes na agricultura familiar de Jaboticaba, Rio Grande do Sul, que se conformam como fatores de permanência de um modo de vida, representando e significando a identidade de (ser) agricultor.

pict0009.jpgNeste estudo de cunho antropológico pretendemos problematizar os aspectos que fundamentam a doação de comida efetuada aos "moradores de rua" e/ou pessoas em situação de vulnerabilidade social provenientes de bairros periféricos de Pelotas, Rio Grande do Sul.

O trabalho caritativo é realizado pela Comunidade Fonte Nova: um grupo de oração vinculado à Igreja Católica. As primeiras atuações caritativas remontam há sete anos, quando o grupo iniciou a distribuição de comida aos "pobres", ao lado da histórica igreja pelotense, a Catedral São Francisco de Paula. Nesse ambiente urbano e público é que os beneficiários alimentavam-se, sentados em grupos no meio-fio da calçada. Após uma série de reclamações advindas de vizinhos - importunados com a sujeira e com a "poluição" ali deixadas pelos comensais - o grupo Fonte Nova mudou-se para uma casa, situada na Rua Dom Pedro II, dando ali continuidade a suas atividades, mas agora em um ambiente considerado apropriado, em espaço privado. Essas refeições, tanto no modelo anterior como no atual, acontecem todas as quartas-feiras, ao cair da tarde.

A metodologia da pesquisa deu-se no envolvimento direto com os grupos - tanto doadores quanto beneficiários -, com os quais realizamos a observação participante no intuito de desvendar as práticas e percepções que os interlocutores constroem entre si, tendo a comida como portal de entrada.

bandejapaisa4.jpgComer é mais do que um simples ato biológico: é também um ato que marca fronteiras de identidade entre diferentes grupos humanos. A estreita relação entre alimentação e cultura é visível quando o que se come, quando se come, como se come, e com quem se come são valorados de forma diferenciada por distintos grupos de seres humanos. É assim que em minha viagem à Colômbia (em 2008), passando por cidades grandes e pequenas, zonas urbanas e rurais, chamou-me a atenção o ato alimentar enquanto elemento de identidade e diferenciação de um grupo social específico.

Na Colômbia, falar da cultura Paisa é falar de um território não instituído administrativamente, mas formado e forjado culturalmente. No começo do século XX, uma separação administrativa terminou por dividir a região Paisa entre, por um lado, os departamentos de Antioquia, Caldas, Quindio e Risaralda e, por outro lado, o norte do Vale do Cauca e do noroeste de Tolima, região formada por montanhas e atravessada pelas cordilheiras andinas. Não por acaso, a chamada capital Paisa, Medellin, com seus mais de três milhões de habitantes, é conhecida como a capital da montanha.

[Leia a primeira parte deste artigo aqui]

arroz_black.jpgA comida em geral, assim como o arroz, é simbolicamente parte de um código que organiza a alimentação bem como as relações étnicas, de gênero, de trabalho e as interdições e indicações alimentares no tempo e espaço. Ao mesmo tempo em que possui um valor nutricional, a comida tem também um valor cultural.

É o que Schoepf (1979, p.4) observa, no contexto do comer indígena: "a mesa é o lugar de um saber pertinente que conjuga cozinha e sociedade", enfatizando que entre os Wayaná o "saber comer" define o código social do grupo (Schoepf, 1979, p.11).

Tal como entre os Wayaná, a comida dos Marubo (Montagner e Melatti, 1987) aponta para etno-classificações. Para esse grupo indígena, ela é dividida em ingredientes "pesados" - aqueles que são caçados ou coletados na mata - e os "leves" - aqueles que são por eles cultivados nas roças ou criados na aldeia. É interessante que no médio Rio Negro (Amazonas), no cotidiano das aldeias, os vários grupos indígenas consomem suas comidas tradicionais, carnes de caça ou peixe cozidas ou moqueadas acompanhadas por beiju, produzido de farinha de mandioca e pimentas. No entanto, quando realizam suas grandes reuniões de lideranças políticas, eles consomem "comida de branco", composta de feijão com arroz, carne de boi e macarrão.

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Parte 1: um pouco de história 

A presença do arroz no Brasil remonta ao período do descobrimento, tendo sido pela primeira vez mencionado na famosa Carta do Achamento do Brasil, escrita por Pero Vaz de Caminha, que afirma que os indígenas "de tudo o que lhes deram comeram mui bem, especialmente ladão cozido, frio e arroz". Em sua forma silvestre, o arroz vermelho ou da terra é encontrado ainda hoje no Pantanal Matogrossense e na Amazônia, recebendo, entre os grupos tupi, denominações que destacam suas similitudes com o milho. No livro Tratado da Terra do Brasil, escrito por Gandavo (em 1568), consta que "há nesta terra muita copia de leite de vacas, muito arroz, favas, feijões, muitos inhames e batatas, e outros legumes que fartam muito a terra".

Há uma série de controvérsias quanto à introdução do arroz europeu no Brasil. Segundo Almeida Pereira (2002), a Oryza sativa foi provavelmente trazida de Cabo Verde, ainda na segunda metade do século XVI, juntamente com a cana-de-açúcar, o coco, o inhame e alguns animais, produtos importantes para a Capitania da Bahia, que então se configurava. No século XVII, açorianos introduziram o arroz no Maranhão e Grão-Pará. Produzido para subsistência, o arroz era cultivado e pilado pelas mulheres, prática que se mantém até hoje em regiões ribeirinhas e em seringais da Amazônia. No Nordeste, no vale do rio Piancó, encontra-se o chamado arroz vermelho cultivado ou "da terra", produzido em pequenas áreas de terra firme, em solos de alta fertilidade e capacidade de retenção de água (Almeida Pereira, 2004).

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