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Editoras desta coluna: Renata Menasche Fabiana Thomé da Cruz

tita_preparando_codornas.jpgTomar a produção fílmica como campo etnográfico pode disparar uma infinidade de questões e temáticas que falam do cotidiano das pessoas, da vida social, da manifestação das diversas culturas presentes no mundo em que vivemos.

Como água para chocolate, filme mexicano do diretor Alfonso Arau, produzido no ano de 1992, é um filme que convida à reflexão. A partir da comida e da relação que os personagens estabelecem com a mesma, é possível perceber e conhecer os modos de vida do lugar em que se desenvolve a narrativa. Quem nos conta a história é a sobrinha-bisneta de Tita (personagem principal do filme), através de um livro de receitas que é passado através das gerações de mulheres da família.

abobora.jpgBem, ontem fiz um pouco de iogurte caseiro. E ele estava com uma cara tão convidativa que resolvi usá-lo no prato do jantar de hoje. Coloquei manteiga na frigideira e despejei o iogurte. Deixei refogar bem e adicionei o sal, pouco. Então, coloquei uma berinjela refogada, na verdade um antepasto de berinjela em que ela refogou no alho, cebola, pimentão vermelho e pimenta picante. Depois coloquei um pouco de corações de alcachofra picados. Cozinhou levemente e então despejei a massa que cozinhei. Para terminar, queijo parmesão ralado na hora. Não dá para descrever. O iogurte deu um toque macio e azedinho, levemente azedinho, ao prato, melhor do que seria um creme de leite. Leve, muito leve. Quase primaveril. Mas perfeito para uma taça de vinho carmenère.

Você vai dizer: de novo massa? Pois é. Mas o que você combinaria com um molho desses? Talvez um filé com purê de batatas, ou podia ter sido um risoni - aquele macarrão com cara de arroz - o que não deixava de ser massa também. Um arroz integral só cozido na água podia ter ficado bem temperado com esse molho. O problema é o mesmo: nunca me lembro de trazer ingredientes para casa. E também não como carnes.

mapa_portugal.jpgPara além do bacalhau com batatas e do Manuel da padaria, que muitas vezes povoam o imaginário de nós, brasileiros, Portugal é uma festa de sabores que compõe, juntamente com ritmos, sotaques, tradições e identidades muito diversas, a mágica desta adorável terrinha. Um país pequeno em extensão, mas que abriga uma notável diversidade cultural, com pessoas e grupos que criam distintos modos de viver, fazer, pensar e responder à natureza que os circunda.

No extremo norte do país, dividindo a fronteira com a Espanha, situa-se a região de Trás-os-Montes, montes esses que separam o litoral português do interior do país e da Península Ibérica. Morando por alguns meses nessas bandas, foi-me inevitável traçar comparações com os pampas gaúchos do sul do Brasil, de onde sou oriundo.

mapa_mocambique.jpgTomando como base a divisão administrativa por regiões de Moçambique (ver mapa) - país situado na costa oriental da África -, temos que na zona sul (Maputo, Gaza e Inhambane) a "eleição alimentar" dirige-se ao arroz, na zona central (Manica, Sofala, Tete e Zambézia) ao milho e na zona norte (Nampula, Niassa e Cabo-Delgado) à mandioca. Especificamente no que diz respeito à zona norte, a produção de mandioca é massificada entre as famílias e comunidades rurais. Ano após ano, as famílias reservam grandes extensões de terra a essa planta. É comum, em qualquer pedaço de terra agricultável, encontrar-se uma plantação de mandioca, planta mais produzida na região.

A importância da mandioca no norte de Moçambique é evidenciada pela produção em monocultivo, sendo associada ao sustento dos membros e à honra do chefe da família. Tal fato estabelece diferença com o observado por Woortmann e Woortmann (1997), em estudo realizado entre camponeses do nordeste brasileiro, quando indicaram que os agricultores praticavam consorciamento em função do tempo de cada planta. A planta do ciclo curto era colocada na mesma parcela com a de ciclo longo, para permitir colheitas separadas e bom aproveitamento da terra. Mas para as famílias observadas de Nampula, a planta importante é colocada em uma parcela separada, para que receba dedicação exclusiva, já que, nesse caso, está em questão a honra do chefe da família.

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As reflexões a seguir são realizadas a partir de uma visita ao mercado Ver-o-Peso, na cidade de Belém, estado do Pará, em abril de 2009. Trata-se do olhar de alguém que vive no outro extremo do país e se propõe a compartilhar impressões de uma realidade distinta da sua. Provavelmente essas impressões seriam totalmente distintas se feitas pela visão de quem frequenta o local ou trabalha no mercado.

O mercado Ver-o-Peso foi construído em 1625 e faz parte de um complexo que compreende outras construções históricas, entre elas a Estação das Docas (inaugurada em 2000), resultante da restauração dos armazéns do porto (LUCENA, 2008). A Estação das Docas possui três armazéns, hoje conhecidos como Boulevard, onde a gastronomia tem um papel fundamental, sendo possível entrar em contato com a impactante cultura alimentar paraense.

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Embora o Ver-o-Peso esteja situado no Norte do país, na porta de entrada da Amazônia, existem aspectos que são generalizáveis à maioria das regiões do país. As feiras e mercados são locais que oferecem muito mais do que a possibilidade de comercializar e adquirir produtos. Mais que vender, os feirantes têm ali um espaço intenso de socialização e vivência cotidiana, sendo comum encontrar pessoas que há mais de 30 anos estão no mercado, apregoando seus produtos e divulgando a cultura do estado. Mais que comprar, os visitantes podem sentir sabores, cheiros e modo de vida e trabalho das pessoas do local.

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