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MandiocaEra um outubro frio, mas de muito sol. Eu estava ajudando Ivanir a vender seus biscoitos e pães durante a 7a Feira Estadual de Sementes Crioulas e Tecnologias Populares de Canguçu, evento grande que mobiliza quase todas as comunidades e organizações camponesas da região e que acontece a cada dois anos. Uma feira que possibilita a troca de mudas e sementes crioulas, além de criar espaços de sociabilidade entre conservadores e produtores de sementes.

Já era quase meio dia quando Gabriela chegou. Uma menina bem alta, mas que pelo modo de andar e rir confessava ainda ser uma criança. Ela estava agitada, preocupada, e só queria saber em que lugar ela colocaria suas mudas e suas mandiocas. Ivanir até que tentou me apresentar a filha, porém toda a atenção da menina estava voltada às mandiocas.

Eram muitas, as mandiocas e as mudas. Então fui ajudá-la a descarregar o carro, para trazê-las para perto da banca. Só depois de tudo posto ao lado da cadeira da mãe foi que ela me agradeceu e riu, pedindo desculpas por não ter me cumprimentado. Não trocamos muitas palavras e ela me levou para ajudar a procurar o lugar certo para expor suas mudas e mandiocas. Não sabia se as colocava ali mesmo junto à banca de panificados de sua mãe ou em outro lugar, junto com outras mudas e sementes das demais crianças guardiãs mirins de Canguçu. Circulamos por toda a feira e, na segunda volta por entre diversidade de bancas, foi decidido que suas mudas e mandiocas ficariam junto à banca de sua mãe.

Como algumas outras crianças da zona rural de Canguçu, Gabriela é uma guardiã mirim de sementes crioulas. Passara os últimos dois anos guardando, cuidando e reproduzindo sementes. Era sua primeira feira, portanto a primeira vez que pessoas de fora do assentamento teriam acesso à sua variedade de milho e a suas mudas de mandioca. Ela também fez questão de trazer as mandiocas já prontas para vender.  

Placa Assentamento 12 de JulhoGabriela tem treze anos de idade e é a filha caçula de Ivanir. Ela nasceu no Assentamento de Reforma Agrária 12 de julho, em Canguçu e, junto com William e com a pequena Manuela, representa a terceira geração desse pedaço de terra em que famílias foram assentadas há vinte e oito anos. As sementes e mudas não são valorizadas apenas pela Gabriela. Toda a família e várias outras do assentamento estão envolvidas com as sementes. É por meio das mandiocas já colhidas lá da roça, do pé de chia na janela da cozinha de Ivanir, ou do banco de sementes que a vizinha e companheira de assentamento Lourdes tem em sua casa, que o Assentamento 12 de Julho vai se constituindo.

As mudas de mandioca de Gabriela são cultivadas e colhidas por seu pai e sua irmã mais velha, em um pedaço de roça separado dos outros plantios, pois neles ainda há algumas sementes híbridas. Ivanir também aproveitou para cultivar em seu quintal uma variedade de chia crioula, que fica junto a seus chás e girassóis. A família começou a manejar sementes crioulas há poucos anos e o processo é lento. É preciso paciência e cuidado.

Lourdes e seu esposo já estão aposentados e, portanto, não produzem mais alimentos para vender em cooperativas ou feiras, mas reproduzem sementes crioulas e as vendem pela BioNatur*. Guardam e reproduzem variedades de feijão, girassol, abóbora, melão, mostarda, fava, entre outras.

PimentasAssim, as sementes estão espalhadas não só pelas roças, quintais e salas do assentamento. Elas estão nas conversas, nas atenções, nas prioridades. É preciso dizer que para produzir sementes crioulas é preciso circular, viajar para outras cidades, para outros estados, de modo a acessar outras variedades. As sementes crioulas perpassam posicionamentos, ações e discursos de inúmeras comunidades camponesas e indígenas do Brasil. Seu manejo e reprodução, entendidos como discurso e prática conservacionista, são ações primeiramente dessas comunidades, pioneiras nos movimentos de reivindicação do manejo legal de sementes não patenteadas.

Não tardou para que outros movimentos sociais assimilassem tais práticas e discursos e foi assim que as sementes crioulas colocaram-se para as assentadas, como Ivanir, Gabriela e Lourdes, por meio de mudanças na pauta do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST), que passou a abarcar outras questões além da luta pela terra (LEITE; DIMENSTEIN, 2010), tais como manejo de sementes crioulas, conservação da biodiversidade, soberania alimentar e agricultura familiar, por exemplo.  

As mandiocas de Gabriela, a diversidade de sementes espalhadas pela sala de Lourdes, a pequena horta com chias e ervas de Ivanir são, também, meios de afirmação e legitimação de um modo de ser, assentada.

Tomate e salsinhaTais práticas e falas são introduzidas no cotidiano das assentadas por necessidade de legitimação do assentar. Elas vão se reconstituindo como pessoas do movimento social pela assimilação de modos conservacionistas, que as coloca em oposição aos modos de produção do agronegócio – manipulação de sementes em laboratórios, o uso de agrotóxicos, o cultivo de monoculturas, etc. A conservação, em suas práticas e simbolismos, é arma política na luta por direitos fundiários e vem se expandindo enquanto meio de reivindicação – por comunidades indígenas, extrativistas, remanescentes de quilombo, etc. – de outros direitos, tornando-se parte de projetos locais (CUNHA; ALMEIDA, 2009).

As assentadas do Assentamento 12 de Julho têm assumido posturas de reivindicação referentes à agricultura familiar e ao manejo de tecnologias tradicionais, constituindo um fazer agricultura que contrasta com os modos da modernização agrícola, diferenciação que as coloca em diálogo com outros movimentos e comunidades na luta pela legitimação do estar e do permanecer na terra. Essas assentadas, como tantas outras, de tantos assentamentos, entendem o manejo e a conservação de sementes crioulas como parte constitutiva do ser assentada, identidade reafirmada pela incorporação, desde a infância, de determinados ações e discursos.


Referências

ALMEIDA, Mauro W.B.; CUNHA, Manuela Carneiro da. Populações tradicionais e conservação ambiental. In: CUNHA, Manuela Carneiro da. Cultura com aspas. São Paulo: Cosac Naify, 2009.

LEITE, Jáder F; DIMENSTEIN, Magda. Movimentos sociais e produção de subjetividade: O MST em perspectiva. Psicologia & Sociedade, 22 (2), p. 269-278, 2010.


* “A Rede de Sementes Agroecológicas BioNatur é uma cooperativa de agricultores e agricultoras assentados pela Reforma Agrária, produtores de sementes de diversas espécies de hortaliças, plantas ornamentais, forrageiras e grãos, em sistemas de produção de base agroecológica”. (Disponivel em: http://www.bionatursementes.bio.br/. Acesso em: 22 de jun 2016).

** Todas as imagens são de autoria de Larissa Mattos, realizadas junto a assentados – em suas casas e quintais ou na feira – do Assentamento de Reforma Agrária 12 de Julho, no município de Canguçu, Rio Grande do Sul, Brasil.


MascaraLarissa Mattos atualmente é graduanda em Antropologia pela Universidade Federal de Santa Catarina. À época da pesquisa, era graduanda em Antropologia pela Universidade Federal de Pelotas, compondo a equipe do Grupo de Estudos e Pesquisas em Alimentação e Cultura – GEPAC e participando das atividades da agenda de pesquisa Saberes e Sabores da Colônia.

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