Slow Food Brasil

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Editoras desta coluna: Renata Menasche Fabiana Thomé da Cruz

“Se a gente é o que come, quem não come nada some,
por isso ninguém enxerga essa gente que passa fome”.
(Victor Rodrigues)

Arnaldo Antunes ComidaQuais as necessidades humanas? De que temos fome? Se tomarmos como mote para essa discussão a música Comida, dos Titãs, podemos encontrar alguns eixos norteadores que ampliariam nossa visão da fome como um problema não apenas individual como também social, político, cultural, perpassando questões como cidadania, igualdade, desejo/prazer e outras necessidades humanas que ultrapassam as carências nutricionais ou desnutrição. Ainda que o acesso à comida fosse universal, ele não deveria ser homogeneizante, como satiriza a letra dos Titãs: “Bebida é água! Comida é pasto!”.
Em nosso país, a construção de conceitos como fome, desnutrição, insegurança alimentar têm um vasto histórico na formulação de políticas públicas, tornando-se emblemática a luta e combate à fome, defendida por grandes pesquisadores, instituições e governos, em diferentes perspectivas até os dias de hoje. Mas o pensamento coletivo sobre a fome, essa necessidade crônica de tantos, que expõe carências humanas diversas, medos e uma insegurança diária sobre não ter o que comer, ainda parece ser pouco escutado. Escuta que pressupõe um protagonismo nesse querer “não só comida”, mas autonomia no comer/alimentar-se, domínio de suas práticas alimentares e comensalidades, melhorias de qualidade de vida e cidadania.
Assim, buscando qualificar nossa escuta sobre os significados da fome, propomos aqui uma breve reflexão a partir da análise de alguns estudos qualitativos em que as temáticas fome, insegurança alimentar e simbolismo da comida estão presentes e cuja discussão transita entre a cultura e a biologia. Entre esses estudos, selecionamos uma profunda e visceral etnografia produzida por Maria do Carmo Soares de Freitas (2003) realizada no convívio com moradores do Pelá, sobre a agonia da fome numa periferia de Salvador, Bahia. Escolhemos também um estudo com foco nos significados da comida para consumidores pagantes e não-pagantes de um restaurante vegetariano localizado na região central de Pelotas, Rio Grande do Sul, por Tiago Lemões da Silva e Cláudia Turra Magni (2008). E, somando-se a esses, elegemos uma etnografia realizada em duas distintas comunidades rurais da província de Nampula, Moçambique, onde Jone Mirasse e Renata Menasche (2010) problematizam a produção e consumo de uma batata doce estrangeira inserida no país por meio de incentivo governamental como resposta a problemas de desnutrição.
Sem a intenção de analisar em profundidade o detalhamento e diversidade desses trabalhos, é aqui proposta a discussão de algumas categorias, significados e sentidos convergentes e até mesmo contraditórios entre si, a fim de enriquecer o debate sobre problema tão universal e significante em seu combate, quanto particular e invisível em sua vivência, tal qual é a fome.
batata doce de polpa alaranjadaTabu de nossa civilização, comparada por Josué de Castro (1984) ao sexo, como “indignos de serem tocados” e “mantidos por um silêncio opressor”, a fome é apresentada a Freitas (2003) em Salvador como uma palavra “velada, escondida e substituída por símbolos” e gestos, um “tabu linguístico”, “signo da maldição”, numa tentativa de distanciamento, embora não haja a negação da condição faminta (desde que enunciada nos quadros social e político, mas apagada de seus corpos e membros familiares). Mirasse e Menasche (2010), quando analisam as categorias classificatórias nativo, cativo e estrangeiro no que diz respeito às preferências alimentares em Nampula quanto à mandioca, batata doce de polpa branca e batata doce de polpa alaranjada, respectivamente, se depararam com certo distanciamento pelos moradores. A batata doce de polpa alaranjada, símbolo do programa de massificação do governo para proporcionar alimento nutritivo e tida como estrangeira pelos moradores, “portanto, digna de desconfiança, sendo a causa de todo mal, provoca azar, sendo por isso abominável”, é, muitas vezes, evitada no âmbito doméstico, no seu uso em casa, com a família e em festas comunitárias (Mirasse e Menasche, 2010).
Para Mirasse e Menasche (2010), o comportamento dessa comunidade é distinto e contraditório na medida em que a batata é servida em festas para receber e agradar os técnicos estrangeiros envolvidos no programa e aparentar que está tudo bem, repetindo, sem gaguejar, o discurso do estrangeiro. Essa contradição aparece também na fala de um senhor de Nampula, quando afirma que “A gente não produz nem come batata doce, até porque faz bem para as crianças aprenderem, mas não mais do que isso, porque o seu consumo não traz saúde”. agonia da fome Maria do Carmo de FreitasFreitas (2003), por sua vez, encontrou diversas oposições, contradições, negações e distanciamentos no discurso daquela comunidade em Salvador, “numa dinâmica conflituosa entre o real e o simbólico”. Estas, também “estreitamente vinculados às questões gerais da sociedade”, com sentidos e sensações negadas dentro e fora do corpo, reafirmadas no mesmo palco, onde fraco/forte, coragem/covardia são “semanticamente representações opostas, mas que possuem um elo que se encontra na presença-ausente de fome e vice-versa” (Freitas, 2003).
Num mundo de dimensões objetivas e subjetivas, a fome torna-se a maior adversária dos moradores do Pelá em Salvador, vira “a coisa”, bicho/besta, uma fera, a encarnação da fábula Romão, externalizada na tentativa de “coibir a fusão do corpo com a imagem que cria, essa alegoria que está no real”, tomada como um caráter de entidade (Freitas, 2003). Para Mirasse e Menasche (2010), outra entidade aparece no discurso dos moradores, para além do programa de massificação do governo: o mundo invisível, que, em oposição ao programa, viria “reivindicar seu lugar, colocando abaixo os esforços da primeira entidade e desacreditando-a, ao deixar esse povo doente, com fome e, como consequência, vivendo sob insegurança alimentar e nutricional”.
Também estariam relacionados a uma consequente insegurança alimentar a comensalidade, as maneiras de cozer e comer, os instrumentos e utensílios utilizados na cozinha. Para Mirasse e Menasche (2010), num relato de um morador de Nampula, cozinhar “de qualquer jeito”, cozinheira mal-humorada, usando temperos industrializados, em panela de ferro/alumínio em oposição à panela de barro, fogão elétrico/gás ao invés de fogão à lenha, não traria “harmonia entre o biológico e o espiritual para completa sensação de prazer” e saúde. Assim como em Pelotas, servir a comida aos não-pagantes em sacos plásticos, sem manusear pratos e talheres, do lado de fora do restaurante, é vista por esses consumidores como algo depreciativo, “é pensar-se como um bicho”, pois na fala deles: “ninguém é bicho!”, “só como assim, com as mãos, quando tô com fome” (Lemões da Silva e Magni, 2008).
Esteve presente nesses estudos também a vergonha pela situação de fome. Se em Nampula a produção e o consumo da batata doce de polpa alaranjada para aliviar a insegurança alimentar e nutricional “subvertem, culturalmente, a honra e o prestígio” e trazem valoração negativa àquelas famílias (Mirasse e Menasche, 2010), em Pelotas, as sobras doadas em fila e silêncio aos não-pagantes, para serem comidas do lado de fora, distante do restaurante, em sacos e sem talheres é rejeitada por alguns (Lemões da Silva e Magni, 2008) e, no Pelá, a fome crônica é percebida “não como uma doença, mas antes, um estado de desvalorização social do sujeito perante o mundo, a sociedade (...), pois os famintos não só se sentem humilhados, como se percebem sem qualquer esperança de sair das condições sociais em que vivem” (Freitas, 2003).
Se para a antropóloga Mary Douglas, “fome não é falta de comida, mas ausência de relações sociais e culturais” (Douglas, 1975 e 1982, apud Gonçalves, 2004), “os alimentos desempenhariam diversas funções, mas não exclusiva ou principalmente aquela de alimentar ou satisfazer a fome como necessidade natural” (Gonçalves, 2004). Aqui, acima de tudo e portanto a fome parece ser principalmente de autonomia, dignidade e cidadania, num sistema político-social perverso, que marginaliza o faminto e silencia seu protagonismo.

Referências bibliográficas

CASTRO, Josué de. Geografia da fome: o dilema brasileiro: pão ou aço. Rio de Janeiro: Ed. Antares, 1984.
FREITAS, Maria do Carmo Soares de. Agonia da fome. Salvador: Ed. UFBA, 2003.
GONÇALVES, José Reginaldo Santos. A fome e o paladar: a antropologia nativa de Luis da Câmara Cascudo. Estudos Históricos, Rio de Janeiro, n. 33, 2004, p. 40-55.
LEMÕES DA SILVA, Tiago; MAGNI, Cláudia Turra. Entre mesas e bancos de praça: o trajeto simbólico da comida de um restaurante ecológico. Site Slow Food Brasil. 2008.
MIRASSE, Jone; MENASCHE, Renata. Nativo, cativo e estrangeiro: categorias alimentares e percepções sobre Segurança Alimentar e Nutricional. In: IV Encontro da Rede de Estudos Rurais, Curitiba, 2010.
RODRIGUES, Victor. “Versos Vegetarianos”, Corpo e Alma, poema musicado por (Musicado por Inquérito e Arnaldo Antunes .

* Amália Leonel Nascimento é nutricionista, mestre em Nutrição e Saúde Pública (UFPE) e doutoranda em Desenvolvimento Rural (UFRGS). Dedica-se a estudos na área de Saúde Pública, Segurança Alimentar e Nutricional, Desenvolvimento Humano e Reforma Agrária.

Feira do Modelódromo do Ibirapuera BDesde seu início, a modernização da agricultura se espalhou pelo mundo levando a promessa de que, por meio do uso de agroquímicos, poderíamos produzir alimentos baratos e em quantidade suficiente para acabar com a fome do mundo. No entanto, essa promessa não levava em consideração a qualidade de alimentos ou tampouco a saúde de trabalhadores e consumidores. Considerava, menos ainda, os impactos sociais e ambientais.  

Porém, não demorou muito para que os efeitos colaterais desse modelo de produção viessem à tona. Ainda em 1962, quando a Revolução Verde recém chegava aos países do hemisfério sul, a bióloga Rachel Carson publicava o livro “Primavera Silenciosa”, relatando os impactos dos agrotóxicos ao meio natural. Na época, a descoberta foi polêmica e altamente questionada. Hoje em dia, a quantidade de pesquisas e evidências já não nos permite negar o impacto nocivo dos agrotóxicos, seja na produção ou no consumo.

chocolateO filme Chocolate, lançado em 2001 e dirigido por Lasse Hallstron, aborda a história de Vianne Rocher que, acompanhada de sua filha de seis anos, muda-se para uma pequena cidade católica do interior da França, com o propósito de abrir uma loja de chocolates em plena época da quaresma. Diante da novidade, a população fica curiosa em conhecer o local, mas, sob forte influência da religião e permanente vigilância do prefeito da cidade (o Conde Paul de Reynaud, católico fervoroso), é levada a reprimir sua vontade e desejo de consumir o produto tão tentador quanto profano.

No próximo dia 13 de setembro, às 14h30, acontecerá o lançamento do vídeo Guardiãs do Queijo Coalho no Sertão. O evento será realizado no Cine Vitória, na antiga Rua 24h, em Aracaju.

O vídeo exibe o modo de vida das mulheres sertanejas que aproveitam o leite, importante recurso territorial, para elaborar o queijo. Com o soro, subproduto da produção de queijos, as mulheres alimentam os suínos que, comercializados, geram a renda que contribui para a sustentabilidade do estabelecimento rural e a continuidade nessa terra lugar de vida e labuta. As camponesas “mulheres de opinião” dos municípios de Monte Alegre de Sergipe, Porto da Folha e Nossa Senhora da Glória e seus familiares contam suas histórias e manifestam a relevância da produção de queijo para a vida das famílias sertanejas.

Queso maduro de ChipiloEn la actualidad se producen en México al menos 40 variedades de quesos genuinos, la mayoría a partir de leche cruda. Se elaboran en pequeñas cantidades y siguiendo procedimientos tradicionales-artesanales. Sus orígenes se remontan en algunos casos, al periodo de la Colonia, como sucede con el queso Cotija Región de Origen. Muchos otros se comenzaron a elaborar en las haciendas como una estrategia para preservar los excedentes de leche que empezaron a generarse. Aunque inicialmente se siguieron procedimientos típicos de Europa, muy pronto el ingenio local dio pie a quesos dotados con el sello propio de los sabores de México.

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