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É na região dos rios Uruará, Guajará e Tamataí que se encontram os produtores e as produtoras do Piracuí, alimento produzido a partir de duas espécies de peixes bem conhecidas da região do Baixo Amazonas do Pará: o acari e o tamuatá. Essa região faz parte do município de Prainha. Seus antepassados têm origem no Baixo Amazonas, na região chamada "das ilhas", e migraram para aquela região entre as décadas de 1930 e 1950. É uma população que se originou do encontro e do choque entre os indígenas da região e os povos migrantes nordestinos, geralmente de origem europeia e africana. Estas comunidades vivem principalmente da pesca, integrada, em alguns casos, com a criação de gado e pequenos comércios. Apesar de o Piracuí ser encontrado e até mesmo produzido em outras regiões da Amazônia, é aqui que estão poucos dos últimos guardiões da tradicionalidade envolvida nesse produto. Nesse sentido, se destacam as comunidades de Santo Antônio e Vira Sebo.

A agricultura, o extrativismo, a pesca, a criação de gado são a base da economia, mas a importância destas atividades varia dependendo do lugar onde se encontra a comunidade: na terra firme as principais são o cultivo da mandioca e o seu processamento (farinha, tapioca, beijú, etc.); em segundo lugar vêm a coleta de produtos florestais (madeira, cipós e talas, breu, etc.), a agricultura e a pequena criação de gado; a pesca e a criação de gado são as atividades mais presentes na várzea. Uma outra importante fonte de renda são os empregos públicos (professor, agente de saúde, etc.), as aposentadorias e os programas de assistência social.

Um dos grandes problemas atualmente envolvidos com o Piracuí é a mistura de carne de outros peixes, tais como o tambaqui, que denota a certa negligência às técnicas tradicionais do produto original. Além disso, a falta de fiscalização e de consciência ameaça as populações de acari e tamuatá, já que as épocas de defeso desses peixes não é respeitada, e são usadas, inclusive, redes de arrasto de malha fina, que acabam por capturar indivíduos muito jovens. A dificuldade de se encontrar esses peixes durante a pesca já é reflexo da superexploração dessas espécies. 

Arca do Gosto
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O Piracuí é um produto que tem forte ligação cultural com os povos da Amazônia, já que os povos indígenas que habitavam a região, antes da invasão europeia, já produziam esse alimento. O produto, em si, remonta a uma técnica tradicional de conservação do peixe, já que a preparação envolve a torra da carne e a retirada de umidade. Essa técnica tradicional, que envolve também espécies específicas de peixe, nesse caso, faz com que o alimento se encaixe nos princípios do bom, limpo e justo, como se pode ver em seguida. Além disso, o preparo do Piracuí está intimamente ligado às comunidades tradicionais da Amazônia, onde os pescadores e as pescadoras mantém essa cultura.

Possui um sabor agradável e pode ser consumido diretamente ou utilizado para o preparo de farofas, bolinhos e sopas. É muito apreciado pela população do Norte do Brasil, em especial nos locais onde é produzido. Possui boas taxas proteicas (mais de 60%, em média), sendo uma ótima fonte de proteínas de alta qualidade, em especial às comunidades tradicionais envolvidas em sua produção.

Trata-se de um produto bom, de qualidade, mas, mesmo assim a comunidade está lutando para a melhoria do produto e para que o produto não acabe, mantendo suas origens; as boas práticas de produção e o conhecimento dos melhores produtores são fundamentais, já que existe uma grande diferença de qualidade entre o piracuí “bem” e “mal” feito.

Muitos produtores respeitam as boas práticas da pesca (usar malhadeira para não pescar os peixes pequenos, respeitar o defeso) e mantém higiênico o lugar de transformação; muito trabalho tem que ser feito neste sentido para envolver mais produtores nestas boas práticas.

Uma parte do produto, geralmente o de melhor qualidade, vem da produção de pequenos pescadores independentes. Outra parte vem da produção de pescadores que têm que “arrendar” lagos para a pesca (o que custa geralmente o 30% do produto final) e vender o piracuí obrigatoriamente para o dono do lago, que paga um preço abaixo do praticado; neste caso, geralmente, a estrutura é improvisada, porque não se trata de estrutura permanente.

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